Visita ao Atelier de Morito Ebine

Há bastante tempo que gosto de Marcenaria. A ideia de produzir algo manualmente me agrada.

Na minha infância, nas férias em Paraisópolis-MG, eu ia sempre a Oficina do Tio Waltinho vê-lo trabalhar. O cheiro da madeira serrada, o móvel surgindo… boas lembranças.

Agora, depois de crescido, ando retomando algumas coisas, e mexer com madeira tem sido uma delas, embora esteja no plano das ideias.

Além de ficar pesquisando na internet, fuçando com as madeiras nos fins de semana que consigo, desenhando as ideias que desenvolvo… também fui ao Atelier/Oficina do Marceneiro Morito Ebine em Santo Antônio do Pinhal – SP.

Morito Ebine é uma referência para quem estuda e pratica a Marcenaria. Seu design e a maneira como executa suas peças são únicos. Pra mim, que estou tão próximo do Atelier dele (cerca de 1 hora de carro), poder visitá-lo e passar algumas horas acompanhando seu trabalho e processo construtivo é um privilégio.

Separei dois links onde tem-se o trabalho de Morito, um é o site dele (www.moritoebine.com) e o outro é de um vídeo que o Itaú produziu (http://youtu.be/h7qwavYhYwQ). O trabalho dele é tão singular que tem muita informação na internet sobre. Vale a pena pesquisar!!!

Na minha segunda visita fiz alguns registros que gostaria de compartilhar. A ideia foi pegar o processo produtivo da Oficina, um dos destaques do trabalho de Morito. Deixei as fotos em bom tamanho e acompanhadas de comentários e descrições.

Uma geral da Oficina

Morito no primeiro plano, Wagner e Marcelo logo ao fundo. O primeiro fazia adequações em um Gabarito, enquanto os outros dois estavam na produção de Cadeiras (Cadeira Weg, se não me engano). Em outras fotos haverão mais detalhes do processo.

_DSC3698-Editar

Morito é bastante conhecido pelo processo construtivo de suas peças estar relacionado com o uso de gabaritos. Muitos deles ficam guardados, como que em Kit’s, outros tantos pendurados na estrutura do telhado. Visualmente muito agradável.

Em uma das portas de acesso

Falando em estrutura, a do telhado também tem o travamento com cravilhas enormes de madeira. Há informação por todos os cantos.

_DSC3637

É comum vermos a utilização de JIG’s na Marcenaria. No entanto, os Gabaritos são únicos para uma peça que já veio de outra interferência e que naquele momento tem de ser aparada de uma determinada forma. No caso, um encosto de cadeira que na tupia recebeu uma ‘corte’ para arredondar o canto da peça. Vê-se o mesmo efeito no outro lado do encosto. Quando se observa as inúmeras faces do encosto, a multiplicação das intervenções na peça para obter o resultado final é realmente fascinante.

_DSC3690

Aqui Morito com um Gabarito muito legal, que trabalha em etapas distintas para cada metade da peça. Com isso, ele padroniza o formato do encosto da forma que o definiu. Além da funcionalidade, o Operador trabalha de maneira muito cômoda e segura. A tupia trabalha como se estivesse num half pipe (na verdade está).

Gabarito na Serra Circular

Uma das faces do braço da cadeira é obtida através deste gabarito. Nota-se que em muito dos gabaritos as peças são prensadas por toogle clamps. Com isso, o Operador não se expõe ao risco ao tentar conter a peça… além da precisão no corte. Ao se fazer uma ou cem cadeiras, todas elas serão minimamente parecidas.

_DSC3684

Wagner, um dos Marceneiros que trabalham no Atelier, opera a Serra de Fita com um dos Gabaritos que trabalham o encosto da Cadeira. Este, no caso, faz o corte de inclinação do encosto, o que seria muito difícil “na mão”, ainda mais quando se fala na replicação de um modelo já consagrado. A exposição do Operador é minimizada pela forma que trabalham e nisso o Morito se mostra muito preocupado.

_DSC3694

Nesta foto conseguimos ver o conjunto de peças já trabalhadas no Gabarito anterior, com destaque para a inclinação inserida no encosto. Os furos (ou furas) também foram obtidos a partir de outro Gabarito, desta vez, numa furadeira horizontal.

_DSC3686

O antes e o depois do Gabarito da Serra de Fita.

_DSC3703

Enquanto Wagner trabalha com o encosto, o Marcelo opera com os assentos da mesma cadeira. Após executar um corte ao longo de toda a peça dá-se acabamento na lixa. Ao vermos a peça do assento nota-se uma série de outras passagem, como o formato da ‘poupança’ e o trilho por onde correrá o encaixe.

Xiloteca

A foto da Xiloteca é clichê e, por isso, indispensável. A madeira é a essência do lugar e sua variedade e texturas inspiram.

_DSC3628

A Marca do Atelier de Morito Ebine e o Ano de produção.

_DSC3671

Detalhe dos encaixes (sensacional!!) e do acabamento em andamento. O acabamento que mais vi por lá foi a base de óleo e quem o executa é o William, irmão do Wagner. O ambiente é familiar!

_DSC3692

As cunhas já estão prontas, separadas pela espécie da madeira e tamanho.

_DSC3669-Editar

Um cantinho com ferramentas elétricas, mas as manuais são as mais interessantes (e sem fotos…risos).


Como comentei anteriormente, visitar o Atelier de Morito é um privilégio. E não só pela experiência de presenciar a execução de uma trabalho singular, mas, também, pelas pessoas que lá estão. Os Marceneiros que trabalham no Atelier também compartilham de seus conhecimentos, o Vizinho que hora ou outra passa por lá e troca um dedo de prosa, a Mantiqueira que acomoda este espaço tão bacana, com muitas aves cantando ao seu redor. Além dos Cães que recepcionam aqueles que lá chegam.

Morito Ebine é uma figura a parte. Sempre preocupado se você entendeu aquele processo ou execução. Um anfitrião muito atencioso.

Recomendo a viagem até Santo Antonio do Pinhal para conhecer o trabalho do Atelier e esta turma toda.

Abraço,

Vinicius

_DSC3620

Dizem que os olhos…

_DSC3672

..são o espelho da alma

Anúncios

6 pensamentos sobre “Visita ao Atelier de Morito Ebine

  1. Olá, Também estive no Ateliê do Morito, um pouco antes, em Setembro e pude passar uma semana vivendo o cotidiano. Na época, sem me conhecerem, o William e esposa me acolheram em seu lar e eu pude conhecer o dia a dia do local, do Morito e deus exímios profissionais! Realmente um ambiente familiar e de confiança. Eu só tinha um histórico de família com madeira, não pude apreciar tanto tecnicamente como vc descreveu nos seus sites, mas eu aprendi pelo outro lado, do lado do cheiro das madeiras, coloração, textura e respeito. Esta visita me instigou a conhecer melhor as árvores que fazem parte da vida ao nosso entorno. Se perguntarmos na rua a muitas pessoas, ninguém sabe reconhecer a árvore do Pau-Brasil, árvores símbolo do país. Também compreendi mais que aos mestres não precisa muito marketing e divulgação, as pessoas com interesses reais vão naturalmente ao seu encontro….Lindas suas fotos, não consegui captar o que vc captou com seu olhar pela câmera, mas as imagens foram parte dos dias que estive lá e agradeço por compartilhar as fotos e o belo relato, incluindo os “profissionais” da recepção, os dois lindos cães (não lembrei agora os nomes..) que deixam o ambiente mais aconchegante e alegre!

    • Olá Marcia,
      Obrigado pelo seu comentário.

      Realmente poder passar um tempo no Atelier do Morito é um privilégio. Não só o ambiente, mas as pessoas, as madeiras, os animais, o trato com tudo e todos… tudo isso inspira e transforme o indivíduo. Basta estarmos disposto.

      A ideia de compartilhar é convidar a todos a uma experiencia como esta. Sou apaixonado pela Mantiqueira e o que ela nos apresenta é, também, muito mais do que a natureza. Tem muitos outros tesouros…

      Fiquei feliz pelo seu relato de ter passado um prazo com eles lá. O Morito e seus companheiros são pessoas muito queridas. Dos três Cães eu me lembro bem nome de dois: a Rita (aquela Akita branca) e o Báco (o vira-lata meio cocker pretinho) 🙂

      Abração e obrigado pelos comentários.

      Vinicius

      • Olá Vinicius,

        Também me interesso bastante pela marcenaria, pesquisando sobre o Morito Ebine encontrei a sua página que está muito bem escrita e com fotos excelentes.
        Pretendo visitar o atelier dele, e não sabia de todo esses detalhes que você escreveu, não sabia se podíamos acompanhar o processo produtivo do atelier como você explicou.
        Estou começando a estudar e praticar marcenaria e gostaria de formar um grupo de conhecimento sobre o assunto.

        Juarez

      • Olá Juarez, bom dia!

        Agradeço seu comentário e fico muito feliz que contribuiu na sua pesquisa.

        Como tento instigar no meu texto, visitar o Morito é uma grande oportunidade. Oportunidade de conhecer sim seu processo construtivo (dependendo do dia que for é possível acompanhar alguns trabalhos/execuções), mas, também, conhecer o espaço do atelier, conhecer as peças do mostruário, conhecer as pessoas que também trabalham na oficina, conhecer mais um trecho da Mantiqueira.

        Enfim, não exite de conhecê-lo e visitar Santo Antonio do Pinhal, que tem um roteiro de marcenarias bem interessante.

        Abraço
        Vinicius

  2. Olá,
    Sempre pentelho os marceneiros aqui perto onde moro(salvador-Ba) e quando viajo para o interior. Há algum tempo descobri o trabalho do mestre Morito, fascinante! Quando li a matéria fiquei muito contente de poder ver uma parte do processo construtivo, mais feliz ainda em saber que é possível acompanhar, parabéns! Será que ainda é possível essas visitas, preciso ligar antes pra agendar ou coisa assim?

    • Olá Luis, bom dia!

      Na época que fiz estes registros, foi minha segunda visita à Oficina. Não interferindo na rotina dos Funcionários, já que operam maquinas perigosas e tal, é possível acompanhar este processo. Além disso, uma visita ao show-room é indispensável.

      O Atelier abre de segunda a sábado, das 10 as 17 hrs e é só chegar.

      Em Santo Antonio do Pinhal existe, ainda, outros Artífices, como Andre Wagner, André Marx, Eduardo Miguel e Irmãos Manarim que valerão a visita. Da pra passar o dia só falando de madeira.

      O bacana de ligar antes é saber se o Atelier não estará fechado, ou ainda, ver se o Morito estará na ocasião que for.

      Obrigado pelo seu comentário.

      Abraços,
      Vinicius

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: